Governo do Estado do Rio Grande do Sul
Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão
Início do conteúdo

Uma história de liberdade

Publicação:

Dia da Consciência Negra - 2022
.

No linguajar da tribo dos/as historiadores/as, costuma-se referir o/a pesquisador/a a partir daquilo “com que” ele/a “trabalha”: “fulano/a trabalha com” um real ou suposto tema de pesquisa. Durante muito tempo, se reduziu o estudo da história negra ao “trabalha com a escravidão”: seja porque de fato existem pesquisas de excelente qualidade sobre o cativeiro, seja porque não se admitisse que elas pudessem dizer respeito a pessoas livres. Hoje, isso mudou, e trabalhos sobre situações de liberdade, antes e depois de 1888, têm conquistado cada vez maior legitimidade no seio da tribo.

Esse deslocamento foi obra de esforços historiográficos coletivos, movidos por pesquisadores/as, em grande parte negros/as, que, a partir dos trabalhos pioneiros de Ana Lugão Rios, Hebe Maria Mattos, Karl Monsma, Beatriz Ana Loner, Paulo Roberto Staudt Moreira e Liane Susan Muller (por exemplo), desembocaram em importantes redes de pesquisa, como o GT Emancipações e pós-Abolição da ANPUH e a rede de historiadoras negras e historiadores negros. Toda tentativa de situar um ponto de inflexão pode ser traiçoeira, mas certamente um marco relevante é a tese de Ana Flávia Magalhães Pinto, publicada em 2018 pela Unicamp sob o título “Escritos de Liberdade”, na qual a historiadora explicitou prioridade à liberdade frente à escravidão de uma forma mais nítida.

O acervo do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul é conhecido pela documentação relativa do regime escravista, e isso ficou muito mais evidente a partir da publicação dos catálogos seletivos Documentos da Escravidão. O que nem sempre se lembra é que diversos fundos documentais, para além dos catálogos e, obviamente, das cartas de alforria (largamente utilizadas para esclarecer sobre a conquista da liberdade), têm sido consultados para escrever a história negra como uma história de pessoas livres.

O historiador Marcus Vinícius de Freitas Rosa (veja a entrevista com Marcus para o “Blog do APERS” aqui e aqui), para citar um dentre os/as pesquisadores/as negros que fazem parte desse processo de transformação, verificou a construção social do racismo por parte das classes subalternas, nas interações inter-raciais, na virada dos séculos XIX e XX em Porto Alegre, a partir da documentação criminal custodiada pelo APERS.

Nos estudos sobre comunidades quilombolas, os acervos de nossa instituição também têm sido muito importantes. Claudia Daiane Garcia Molet (entrevista: Parte 1 | Parte 2) cujo trabalho foi premiado, utilizou as fontes primárias documentais do século XIX sobre o litoral norte do Rio Grande do Sul (dentre as quais, registros paroquiais de terras, inventários e testamentos do Arquivo Público), lendo-as em diálogo com a oralidade.

A historiadora Maria do Carmo Moreira Aguilar (entrevista: Parte 1 | Parte 2), por fim, pesquisou os livros do tabelionato de Cruz Alta em busca de contratos de trabalho do pós-Abolição. Além desses, a pesquisadora também estudou inventários e processos-crime da mesma comarca.

Esses são só alguns exemplos de uma vigorosa renovação historiográfica, ainda em curso, que evidencia que a história negra está muito, mas muito além da escravidão, e está sendo reescrita pelos intelectuais negros. Poderíamos citar, ainda, diversos/as outros/as colegas.

No momento em que se celebra a Consciência Negra é preciso referir que ainda há muito a se fazer, entretanto, é uma satisfação pôr em evidência esse processo que se dá pelas mãos de negras e negros, apropriados das instituições de memória e suas fontes, de suas histórias e suas lutas.

Como instituição arquivística, o Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul se orgulha de constituir uma pequena parte desse movimento, franqueando acesso a algumas das fontes que tornam possível a escrita de uma história de liberdade.

Comentários

Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul