APERS recebe Lilián Celiberti e seus filhos, Camilo e Francesca Casariego
Neste Dia Internacional dos Direitos Humanos, relembramos a visita de Lilián Celiberti, Camilo e Francesca Casariego ao APERS
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Em 1978, os militantes uruguaios Universindo Díaz e Lilián Celiberti, e os filhos desta, Camilo e Francesca Casariego, com seis e três anos de idade, protagonizaram um caso que desmascarou o funcionamento da Operação Condor: a cooperação repressiva entre as ditaduras de segurança nacional do Cone-Sul. O que ficou conhecido como “O Sequestro dos Uruguaios”, ocorrido nas ruas de Porto Alegre, tornou-se um caso emblemático das práticas do Terrorismo de Estado e ganhou ampla notoriedade em solo brasileiro, pela atuação de militantes políticos, ativistas, jornalistas e advogados de direitos humanos, como Jair Krischke, Omar Ferri, Luiz Cláudio Cunha e J. B. Scalco, para citar alguns, que mobilizaram uma campanha pela libertação dos sequestrados. Por fim, as crianças, Camilo e Francesca, foram libertados e entregues aos cuidados da avó. Lilián e Universindo, por sua vez, ainda ficaram presos pela ditadura no Uruguai por mais cinco anos.
Para não se alongar na descrição dos fatos que circundam esse episódio da história recente da nossa cidade, uma vez que ele foi objeto de múltiplas reportagens e pesquisas, recomenda-se ao leitor que quiser se aprofundar a obra do historiador Ramiro José dos Reis “Operação Condor e o Sequestro dos Uruguaios: Nas Ruas de um Porto não muito Alegre", cuja dissertação é possível de ser acessada gratuitamente pelo Lume UFRGS.
Nem a prisão nem a derrocada das ditaduras no Brasil e no Uruguai extinguiram a vontade transformadora de Lilián e Universindo, que assumiriam outras lutas no campo dos direitos da mulher, da memória, verdade e justiça e dos direitos humanos. Trajetória essa que também foi seguida por Camilo e Francesca, que atuam junto ao Coletivo Jacarandá, que busca fomentar uma cultura de memória e reúne pessoas cujos percursos foram atravessadas pela ditadura e pelo Terrorismo de Estado.
Esta passagem da família de Celiberti por Porto Alegre se deu, desta vez, pela ocasião da abertura da exposição “Ainda que não me recorde”, de Francesca, no Centro Cultural da UFRGS, no dia 25 de novembro. A mesa de abertura permitiu um momento de troca com Lilián, Camilo e Francesca e foi mediada pela professora Carla Simone Rodeghero, que também integra a Comissão da Memória e da Verdade Enrique Serra Padrós da UFRGS.
No dia 27 de novembro Lilián, Camilo e Francesca visitaram o Arquivo Público, a convite da professora Carla. Na ocasião, foram apresentados os acervos guardados pela instituição que tem relação com a história da ditadura no Brasil. Na sala de pesquisa, eles puderam analisar documentos dos fundos da Comissão Especial de Indenização a Ex-presos Políticos do Estado do Rio Grande do Sul (CEI), que reúne 1704 processos de pessoas presas, torturadas e/ou mortas pelas forças de segurança estaduais durante a ditadura, recolhido ao APERS em 2008, e da Comissão Estadual da Verdade (CEV), que reúne dossiês, audiências públicas, entrevistas e documentos promovidos e reunidos entre 2012 e 2014.
Também foram apresentadas as ações educativas desenvolvidas no APERS no âmbito do Programa de Educação Patrimonial UFRGS-APERS (PEP). A oficina “Resistência em Arquivo: patrimônio, ditadura e direitos humanos”, desenvolvida em 2013 e reformulada em 2023, possui em uma das suas caixas uma abordagem sobre o Plano Condor e utiliza como exemplo o caso de Lilián, Camilo e Francesca. Desde seu desenvolvimento, a oficina já recebeu mais de seis mil estudantes para debater sobre participação política, democracia e direitos humanos a partir de histórias de ex-presos políticos do período da ditadura.
A visita também proporcionou um espaço de escuta sobre a experiência educativa no Cotidiano Mujer e no Coletivo Jacarandá, bem como sobre a trajetória individual dos três e sua luta em prol dos direitos humanos. A presença de Lilián, Camilo e Francesca trouxe grande satisfação e emoção para todos que trabalham no APERS, que do ponto de vista institucional vem a mais de dez anos promovendo ações e reforçando seu compromisso com a pauta dos direitos humanos e da memória sobre a ditadura civil-militar.
Um agradecimento especial a Lilián Celiberti, Camilo Casariego e Francesca Casariego, pela visita e pelas trocas que nos proporcionaram, e à professora Carla Rodeghero, que tornou este encontro possível.