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Entrevista com Beatriz Teixeira Weber - Parte I

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APERS Entrevista
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Beatriz Teixeira Weber é graduada em História pela Universidade Federal de Santa Maria. Cursou mestrado em História na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (defesa em 1992) e doutorado em História Social do Trabalho pela Universidade Estadual de Campinas (defesa em 1997). Sua tese pode ser acessada aqui. Realizou estágio pós-doutoral na Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz (2006). É professora titular no Departamento de História da Universidade Federal de Santa Maria, atuando no Programa de Pós-graduação em História.

“Deveria eu catar os que sobraram, os que se arrependeram, os que sobreviveram em suas tocas e num seminário de erradios ratos suplicar: - expliquem-me a mim e ao meu país?"
Affonso de Romano de Sant’Anna

Beatriz, quais trajetos intelectuais a levaram da análise dos códigos de posturas municipais ao estudo das artes de curar?

Minha graduação e mestrado foram realizados na década de 1980, com uma perspectiva um pouco diferente da atual, que possui um acesso documental muito mais facilitado, pelos mecanismos de busca, pelas formas de registro, pela facilidade de acesso. Nesse processo, a utilização de documentação municipal de Porto Alegre era uma das possibilidades mais acessíveis. Daí o estudo de documentação do Arquivo Histórico de Porto Alegre. Nessa documentação, o que mais se destacava era a regulamentação de atividades relacionadas à organização do espaço urbano e à saúde, que ocupou uma boa parte da dissertação devido a sua expressividade. Dessa evidência maior da organização de uma sociedade considerada saudável no século XIX é que se ampliou a minha pesquisa para as artes de curar em geral, muito diversificadas, relacionadas à história da saúde.

Beatriz Teixeira Weber

De que maneiras esse redirecionamento de interesses implicou em um deslocamento de uma abordagem amparada em Gramsci para uma história social em diálogo com a antropologia?

A perspectiva apontada por Gramsci, que utilizei na dissertação de mestrado, procurava dar conta de uma situação relacionada à legislação municipal e o contexto mais geral brasileiro da segunda metade do século XIX. Mas isso se mostrou muito restritivo porque a legislação apresentou-se como um aspecto que não efetivava uma nova organização social, servindo mais como um projeto de normas de conduta que não convenciam a população de novos hábitos. Daí a amplitude para uma reflexão sobre as diversas possibilidades de exercício de curar no final do século XIX até 1928. Creio que o elemento que ficou mais evidente é a inexistência de uma perspectiva homogênea e institucional que se sobrepujasse sobre as demais e as muitas disputas para que as práticas fossem utilizadas. Na tentativa de refletir sobre essa diversidade é que o arcabouço teórico procurou ser ampliado para perceber as tensões e conflitos próprios das relações entre os homens e entre suas concepções e praticas culturais, visando incluir a experiência das populações envolvidas com práticas de cura.

Poderíamos dizer que esses mesmos caminhos a levaram aos documentos custodiados no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul?

A tentativa de analisar como conviveram práticas de cura diversificadas num contexto de liberdade profissional, adotada no Rio Grande do Sul até 1928, identificando os vários sujeitos envolvidos na cura, gerou a procura da expressão desses sujeitos. Daí a utilização de processos crimes do Cartório do Júri de Porto Alegre. Era uma outra época. Não havia nenhuma descrição documental. Eu abri por volta de 3.000 processos de Porto Alegre de 1881 a 1927. Muitos dos maços nunca tinham sido mexidos na década de 1990. Procurava qualquer referência que poderia tratar de cura. Identifiquei processos por calúnia e difamação entre médicos e outros praticantes, infanticídios, abortos, uso ilegal de substâncias, “assassinatos” por acusação de prática ilegal de medicina ou uso inadequado de substâncias, violação de segredo profissional, cobrança de honorários profissionais, dentre outros. Os processos podem oferecer acesso a muitas perspectivas que não teríamos em outros conjuntos documentais. Daí a importância do seu uso para diversas pesquisas.

Confira na próxima semana a continuidade da entrevista com a professora Beatriz Weber.

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Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul