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Entrevista com Caroline von Mühlen - Parte II

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APERS Entrevista
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Na semana anterior, a historiadora Caroline von Mühlen nos narrou sua experiência de pesquisa com fontes primárias do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul em seu mestrado e doutorado. Vamos conferir a continuidade da sua entrevista!

Em que consistiam as práticas de justiça locais, que você constata existir na colônia de São Leopoldo do século XIX?

A pesquisa que resultou na tese de doutorado partiu da análise qualitativa e quantitativa de 97 processos criminais que foram julgados pelo Tribunal do Júri de São Leopoldo, entre 1846 a 1871. Ao utilizar esse conjunto documental, o objetivo não era julgar o ato criminoso, mas perceber nesse tipo de fonte como a população lidava e solucionava determinadas situações, compreender as normas que orientavam a conduta e o comportamento e reconstituir as experiências e vivências pela ótica daqueles que foram réus e vítimas nos processos criminais. Dos 97 processos levados à justiça, a maioria deles era referente à acusação de crimes contra a pessoa – homicídio, tentativa de homicídio, ferimentos ou agressão física.

Caroline Von Muhlen
Caroline Von Muhlen

Esse tipo de crime correspondeu a quase 90% do total, enquanto os crimes contra a ordem pública e contra a propriedade não foram tão freqüentes. Foram principalmente homens adultos, brancos, casados e de origem germânica que compareceram com mais freqüência à Justiça. Estes indivíduos, com idade entre 22 e 50 anos e alfabetizados, cometeram, principalmente, aqueles delitos. A maioria dos réus tinha o perfil mencionado, vivia há alguns anos no local indicado e fez uso da violência como estratégia para resolver os conflitos interpessoais cotidianos, contra pessoas com quem possuíam relações sociais até certo ponto sólidas. Os crimes, na sua maioria, aconteceram na forma de conflitos diretos. Desafios, insultos, divergências, rixas, cobranças de dívidas, negócios mal resolvidos, problemas com invasão e demarcação de terras, a abertura e o fechamento de caminho podiam ser resolvidos no momento que ocorreu a questão, através de uma explosão súbita de raiva, mas também motivado por questões que já existiam há algum tempo, entre as partes.

O local de ocorrência permitiu constatar dois momentos ligados ao cotidiano dos indivíduos: o trabalho e o lazer. Em locais públicos, privados e isolados, 68% dos casos ocorreram na área mais rural da Vila e Cidade de São Leopoldo, justificando, assim os tipos de crimes denunciados à Justiça. Relhos, machados, enxadas, foices, por exemplo, eram instrumentos utilizados no trabalho diário e nos momentos de explosão súbita de descontentamento podiam servir como instrumento de agressão ou defesa contra pessoas que conheciam e possuíam algum tipo de relação cotidiana (amizade, vizinhança, parentesco, colegas de trabalho). Entretanto, alguns indivíduos também fizeram uso de armas brancas (faca, facão, cacete, canivete, pau) e de fogo (espingarda).

Mesmo existindo em São Leopoldo um Tribunal do Júri (julgamento das querelas) e autoridades policiais (representantes do Estado) responsáveis pela manutenção da ordem, elas nem sempre eram procuradas pelos envolvidos, quando da ocorrência de algum fato. Pelas informações contidas nos processos criminais, a população optou pela resolução pessoal das desavenças cotidianas e corriqueiras, através do uso da violência interpessoal. Dessa forma, a violência tornou-se uma prática de justiça local e legítima, revelando-se, muitas vezes, mais eficiente e rápida que o recurso à Justiça do Estado. Ou seja, a população local optou por resolver seus conflitos e restaurar a paz na comunidade sem a mediação do aparato judicial, fazendo uso da violência física e revelando-se como parte dos costumes locais. No entanto, a justiça institucional era acionada quando a violência resultava em algo mais grave, como, por exemplo, homicídio, agressão física e verbal, ferimentos.

Cabe destacar que os crimes e suas motivações devem ser entendidos como um reflexo do contexto da época e nesse jogo social, os habitantes tornaram-se ora réus, ora vítimas.

Em que medida seu trabalho ajuda a desconstruir as narrativas apologéticas do imigrante europeu, já que traz à cena aspectos de desarmonia e conflitualidade nas relações sociais?

Quem pesquisa sobre a imigração alemã sabe que as produções e publicações não são recentes, ou seja, muito já se falou e escreveu sobre o imigrante alemão, principalmente, idealizando-o como um homem “trabalhador”, “honrado” e “bondoso”. No entanto, é necessário lembrar que cada publicação foi produzida num determinado contexto e com um objetivo específico. Tanto o trabalho de mestrado, quanto a tese foram pensadas e produzidas a partir das inquietações de uma pesquisadora em revisitar temas que foram esquecidos ou negligenciados pela historiografia. Trazer à tona aspectos de desarmonia e conflitualidade nas relações sociais é uma forma de inserir os alemães e teuto-brasileiros num contexto mais amplo e semelhante a outros grupos sociais – organização social marcada por dificuldades, desentendimentos e conflitos não eram exclusividade dos alemães e seus descendentes, mas desdobramentos da ineficiência do projeto de colonização e do não cumprimento das promessas feitas aos emigrantes antes do embarque. Era uma luta pelos seus direitos.

É importante lembrar que livros circulavam na colônia desde o início da imigração e, estes contribuíram para perpetuar as narrativas apologéticas entre os descendentes. Por isso, acredito que os trabalhos acadêmicos – dissertação e tese – precisam chegar às comunidades. As temáticas devem ser debatidas com pessoas de diferentes faixas etárias. Tive a oportunidade de participar do “Ciclo de Palestras”, cujo objetivo é levar as pesquisas atuais sobre a imigração alemã às escolas públicas e aos adolescentes. Foi enriquecedor!

Você encontrou resistências, ou mesmo reações hostis, por parte de interlocutores ligados a manifestações culturais étnicas?

Dependendo do local e do público as reações são diversas. Enquanto que algumas pessoas ficavam surpresas com a pesquisa sobre os mecklenburgueses, outras, no entanto, questionavam acerca da veracidade das informações e desejavam saber o sobrenome dos 329 mecklenburgueses emigrados em 1824 (risos).

O APERS agradece a disponibilidade da Caroline com sua entrevista, e estamos imensamente honrados em publicizar suas pesquisas e conhecimento.

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