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Entrevista com Tassiana Maria Parcianello Saccol – parte I

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APERS Entrevista
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Tassiana Maria Parcianello Saccol é licenciada pela Universidade Federal de Santa Maria (2010), Mestre (2013) e Doutora (2018) em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Dedica-se à pesquisa da história política no Rio Grande do Sul da segunda metade do século XIX até a Primeira República, com ênfase nas instituições partidárias e na trajetória de suas principais lideranças, temáticas sobre as quais publicou diversos artigos e capítulos. É professora de História na rede privada e pública dos municípios de Porto Alegre e Guaíba.

Tassiana, você poderia falar em linhas gerais sobre a temática de sua dissertação e de sua tese de doutorado?

Durante o Mestrado dei prosseguimento a um trabalho que havia sido iniciado já na Graduação. Na etapa final do curso, havia surgido o interesse pela geração de 1870 e, de forma mais específica, por um personagem: o Joaquim Francisco de Assis Brasil. Na época realizei a leitura de alguns de seus livros e discursos parlamentares e procurei, a partir daí, fazer algumas considerações sobre a propaganda republicana no Rio Grande do Sul. Em seguida, vim para Porto Alegre para fazer o Mestrado. Continuei me utilizando da trajetória do Assis Brasil para compreender a década de 1880 no RS, mas partindo de uma outra perspectiva, buscando uma leitura mais social da política.

Tassiana Maria Parcianello Saccol
Tassiana Maria Parcianello Saccol

Na dissertação, analisei a inserção do Assis Brasil numa rede de circulação de ideias e publicação de textos de divulgação da República que era formada por vários atores no espaço nacional. Portanto, em um primeiro momento me centrei em sua ação como intelectual e nos esforços (e estratégias) que ele havia realizado para ser conhecido e reconhecido como tal. Ao mesmo tempo, busquei compreender sua atuação junto ao Partido Republicano Rio-Grandense e tentei explicar como foi possível a sua eleição ao cargo de deputado provincial ainda no período da propaganda. Daí surgiu uma busca por entender sua origem socioeconômica, o envolvimento histórico de sua família com a política e quem eram os seus eleitores na região da campanha. Acabei, por fim, me apropriando de algumas noções do método prosopográfico e traçando um certo desenho de seu eleitorado, ao mesmo tempo em que acabei me defrontando com elementos que me ajudaram a repensar o perfil das lideranças do PRR. De forma mais específica, pude evidenciar que os membros do PRR tinham vínculos bastantes estreitos com as elites políticas e econômicas mais tradicionais da província, e que essa ligação era muito forte na região da campanha, o que inclusive foi mobilizado em favor da eleição do Assis Brasil. Enfim, acredito que o trabalho acabou por trazer alguma contribuição para pensarmos a respeito da continuidade das estruturas tradicionais e dos seus respectivos grupos dominantes num contexto de surgimento de um novo regime político, no caso o republicano. 

No doutorado, avancei temporalmente, mas mantive o foco sobre o PRR. Tomei como objeto as dissidências que se processaram no partido, nas duas primeiras décadas do novo regime. Portanto, saí de um estudo de trajetória e passei a trabalhar com um grupo maior de indivíduos (Apolinário Porto Alegre, Assis Brasil, Demétrio Ribeiro, Antão de Faria, Barros Cassal, Fernando Abbott). Meu objetivo principal foi explicar as motivações das constantes dissidências que o PRR sofria. Vasculhei fontes de diversos tipos, no que destaco em especial os jornais e as correspondências, buscando contrastar o discurso público e o privado, bem como o olhar dos dissidentes e também o dos não-dissidentes sobre as rupturas. Como resultado da análise desse material e do diálogo com a historiografia regional, pude relativizar a importância das divergências ideológicas sobre os conflitos e os rompimentos. Demonstrei, enfim que para vários dos casos analisados, questões relativas à honra, à liderança, ao prestígio entre os pares e correligionários, o acesso e/ou permanência aos principais postos da hierarquia política e partidária tiveram um grande peso no processamento das dissidências.

Para além das rupturas em si, a pesquisa também me permitiu pensar um pouco a respeito da própria estrutura partidária. Na tese, procurei demonstrar que o PRR possuía uma dinâmica interna bastante marcada pela segmentariedade e pela competição entre as diversas facções partidárias e suas respectivas lideranças, aspecto que já havia sido assinalado por Luiz Alberto Grijó e Gunter Axt anteriormente. Com isso, tive a chave para complementar de um certo modo as reflexões do mestrado: se na dissertação eu havia deixado evidente a ligação (socioeconômica familiar) dos membros do PRR com as elites mais tradicionais da província, no doutorado ficou nítido que havia uma certa permanência também no que se refere ao modo de fazer política daquele grupo que tomou a frente no cenário político e os seus predecessores. A tese, portanto, ajuda a pensar que, apesar de a ideologia ter começado a se tornar um elemento cada vez mais importante no cenário político das primeiras décadas republicanas, concomitante a ela, os interesses pessoais, familiares e facciosos, permaneciam tendo grande peso nas discussões, nas cisões e no jogo político de uma forma mais geral.

Como entraram as fontes do Arquivo Público nessas pesquisas?

O uso de fontes primárias do Arquivo Público foi extremamente importante, sobretudo para a minha pesquisa de mestrado, onde trabalhei com processos de inventário de maneira bastante intensa. Meu objetivo era conhecer minimamente quem eram os indivíduos que trabalharam para eleger o Assis Brasil ao parlamento provincial e que formavam, portanto, a sua base social e política local e regional.

A leitura dos livros de atas das reuniões dos clubes republicanos de Alegrete, São Borja e São Gabriel, e uma listagem dos republicanos de Uruguaiana me permitiu chegar aos nomes daquelas pessoas. O próximo passo foi cruzar os nomes com outras fontes documentais que poderiam me dar informações acerca de suas profissões, idade, escolaridade, etc. A documentação mais utilizada nesse sentido, foram os inventários. Como o grupo de indivíduos para o qual eu buscava informações era bastante amplo (399 indivíduos), o uso dessa fonte, evidentemente, se fez de forma quantitativa, ao menos no que diz respeito a esse objetivo da dissertação.

Para alguns casos em específico, a leitura qualitativa desses processos se tornou bastante importante. Os inventários do pai e irmãos do Assis Brasil, por exemplo, me permitiram determinar melhor seu nível de riqueza e padrões de vida, mas também me ajudaram a compreender a organização familiar no que dizia respeito aos negócios, as alianças estabelecidas com outras famílias de elite através de casamentos, dentre outros aspectos. A todas essas informações, foram sobrepostas outras, especialmente oriundas de correspondências, no que destaco a importância dos arquivos particulares sob guarda do IHGRGS, que tiveram um grande peso para a construção da dissertação e, mais tarde, também da tese.

Vamos conhecer, na próxima semana, a continuidade da entrevista com a historiadora Tassiana Saccol!

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