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Entrevista com Vinícius Pereira de Oliveira - Parte I

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APERS Entrevista
APERS Entrevista - Foto: Divulga APERS

Vinícius Pereira de Oliveira é licenciado em História pela UFRGS (2002), mestre em História pela Unisinos (2005) e doutor em História pela primeira instituição (2013). Atuou na elaboração de relatórios de reconhecimento de comunidades remanescentes de quilombos junto ao INCRA e de patrimônio imaterial junto ao IPHAN. Foi professor no Instituto Federal Farroupilha entre 2012 e 2013, e desde então, no Instituto Federal Sul-Riograndense, Campus Pelotas/Visconde da Graça (CAVG).

Você poderia descrever, em linhas gerais, sua trajetória e seus interesses de pesquisa?

Em primeiro lugar gostaria de te agradecer pelo convite, Rodrigo, e elogiar a iniciativa de registrar diversas trajetórias de pesquisadores e suas relações com o acervo custodiado pelo APERS. Certamente é um grande documento que está sendo formado. Bom, iniciei minha primeira experiência de pesquisa histórica como bolsista do Setor de História da América da UFRGS, junto ao professor Eduardo Neumann, que desenvolvia um projeto sobre os primeiros povoadores de Porto Alegre, pela perspectiva da história e da arqueologia. Foi minha estreia em arquivos. Neste mesmo período fui estagiário do Memorial do Judiciário e do Memorial do Ministério Público, implementados pela professora Loiva Otero Félix, com quem aprendi muito sobre o ofício do historiador, tanto metodologicamente quanto no que se refere ao trato e ao tato em se trabalhar em instituições que não as acadêmicas. Também fui estagiário no Centro de Pesquisa Histórica (CPH) da Prefeitura de Porto Alegre, junto ao projeto Memória dos Bairros, onde tive contato com as discussões e a prática da História Oral e da Memória. Isso tudo foi importante, posteriormente, nas experiências de pesquisa que tive oportunidade de participar – junto a comunidades quilombolas e a políticas de patrimônio imaterial – e na própria trajetória de mestrado e doutorado.

Paralelamente, comecei a desenvolver, ainda na graduação, minhas pesquisas sobre a história dos escravizados no Rio Grande do Sul, interesse que na realidade antecede meu ingresso no curso de História. Por meu pai ser negro e minha mãe ter descendência luso-italiana, desde muito pequeno me lembro de fazer as minhas próprias leituras sobre o racismo, a partir de como ele se apresentava em relação ao casamento dos meus pais e ao tronco afro da família. Esse, que morava em grande parte no bairro Petrópolis desde a década de 1940, quando a região tinha grande presença popular e negra, foi para mim um importante referencial de negritude: samba, batuque, futebol no Beira-Rio e as festas familiares. Igualmente, as histórias que minha avó e meu pai contavam sobre ser negro em meados do século XX na região do Bom Fim, Rio Branco e Petrópolis, bairros que eles se referiam como Colônia Africana, impactaram na minha leitura de mundo. Bem como a memória familiar que remete à descendência do marinheiro João Candido Felisberto, que eu lembro de ter aprendido ainda criança durante um café da manhã em família em que meu pai me mostrou um pequeno livro lançado na década de 1980, que não recordo o nome do autor, mas que fora lançado pela Editora Tchê, se não me engano. Meu pai também se chama João Candido.[1] Isso tudo de alguma forma moldou meu interesse na temática.

Bom, iniciei na graduação a minha primeira experiência de pesquisa própria, abordando a presença de escravizados na colônia alemã de São Leopoldo nos anos iniciais do estabelecimento deste empreendimento. Neste momento, era ainda uma pesquisa quantitativa, baseada na análise de inventários custodiados pelo APERS. Este trabalho acabou se desdobrando na minha dissertação de mestrado “De Manoel Congo a Manoel de Paula: um africano ladino em terras meridionais”, quando fui orientado pelo Marcos Tramontini e pelo Paulo Moreira entre 2003 e 2005, na UNISINOS. E no meu doutorado, intitulado “Sobre águas revoltas: cultura política maruja na cidade portuária de Rio Grande/RS (1835-1864)”, estudei as práticas contestatórias marujas a partir da cidade portuária de Rio Grande, pela perspectiva da História Social e dos conceitos de cultura política e mundo atlântico, sendo orientado pela Regina Xavier. No momento estou me aventurando pelo campo da História da religiosidade de matriz africana no Rio Grande do Sul, com foco no Batuque de Nação.

Qual foi o papel dos documentos custodiados no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul em seu trabalho? E dos catálogos dos “Documentos da Escravidão”?

Historiador Vinícius Pereira de Oliveira
Historiador Vinícius Pereira de Oliveira
O acervo do APERS teve papel fundamental nos trabalhos que desenvolvi. Tanto no mestrado como no doutorado trabalhei com os inventários, testamentos, mas principalmente com os processos criminais. Não é novidade o papel destes últimos para a construção de narrativas “a partir de baixo”. Juntamente com outros documentos, como os de fundos judiciais e policiais, me permitiram acessar, ainda que parcialmente, o cotidiano das experiências populares. Também não é novo dizer que estes grupos sociais são visualizados basicamente a partir desses tipos fontes repressivas estatais, então neste sentido esses acervos adquirem inclusive um valor político para a desconstrução de narrativas históricas tradicionais sobre o passado e que invisibilizam e estigmatizam os grupos populares, a população afrodescendente, as mulheres, os(as) homossexuais ou qualquer outro grupo não contemplado dignamente nas projeções laudatórias do passado.

Ao longo do segundo ano do meu mestrado, em 2004, tive a oportunidade de compor a equipe técnica interdisciplinar que realizou a primeira experiência com o Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) no Rio Grande do Sul. Trata-se de um instrumento de pesquisa aplicado pelo IPHAN para o desenvolvimento de políticas de salvaguarda de patrimônio imaterial. No estado, foi trabalhada a questão do povo Guarani Mbyá e dos Lanceiros Negros e o Massacre de Porongos, tendo como coordenadora a servidora da instituição Beatriz Muniz Freire. Minha vinculação foi com a equipe desta segunda temática. Uma das linhas de trabalho foi tentar demonstrar o papel fundamental dos escravizados na composição das forças militares dos dois lados – farroupilhas e imperiais –, mas também como trabalhadores de atividades subsidiárias à guerra e na economia pecuarista. Assim levantamos diversos documentos referentes às cidades de Piratini, Caçapava do Sul e Pinheiro Machado, com o intuito de publicizar as múltiplas faces da experiência dos escravizados e libertos, e os disponibilizamos na forma de um CD-ROM (Guia de referências históricas Massacre de Porongos), juntamente com listagem de bibliografia. O objetivo era que este material, ainda que longe de esgotar as fontes disponíveis, servisse de ferramenta inicial para outras pesquisas. Muitos processos criminais e inventários custodiados pelo APERS estão lá, referidos.

Posteriormente compus equipes que desenvolveram os Relatórios Técnicos de identificação e delimitação de quatro territórios remanescentes de quilombos no Rio Grande do Sul. O papel do historiador neste documento é explicitar os vínculos históricos e culturais das comunidades com o território reivindicado para regularização, de forma que novamente recorri ao APERS. Tu sabes bem Rodrigo, pois já tiveste esta experiência com os quilombos de Morro Alto, juntamente com os historiadores Paulo Moreira e o Marcelo Vianna e o restante da equipe de interdisciplinar. Vocês fizeram um trabalho que é referência nacional para a luta quilombola. E também participaste do estudo do quilombo da Família Silva, né. É importante entender que este tipo relatório se trata de uma peça judicial que vai compor um processo mais amplo, e que os interlocutores da esfera jurídica que avaliarão tais processos de regularização de territórios negros estão por vezes pautados por um paradigma da “verdade objetiva” e da “prova” documental. E por “documento” entende-se a fonte escrita. Embora saibamos que a produção do conhecimento histórico não é objetiva e que nem mesmo um documento textual produzido pelo estado o é, podemos dimensionar a importância do APERS para as demandas desses grupos historicamente expropriados, explorados e discriminados.

O perfil interdisciplinar destes trabalhos me propiciou compartilhar e trocar experiências com o pessoal da Antropologia, Geografia e Sociologia. A Daisy Barcellos, a Denise Jardim, a Ana Paula Comin de Carvalho, a Vera Rodrigues, o Iosvaldyr Carvalho Bittencourt Junior e o Cristian Salaini foram alguns colegas da área da Antropologia com quem tive uma interlocução importante para a minha construção como historiador.

Tu me perguntaste sobre os catálogos “Documentos da Escravidão”. Eles foram usados no meu doutorado e em algumas destas pesquisas que referi. É um trabalho incrível feito pelo APERS, pela praticidade e rapidez no acesso a dados já sistematizados, e que se dependesse da transcrição direta dos originais não teria sido possível agregá-los integralmente.

Sempre que penso no APERS me remete também a uma dimensão muito especial, pessoal. A sua sala de pesquisa foi um espaço fundamental para encontros e aproximações com outros historiadores ao longo da minha trajetória. Muitas trocas de ideias, de referências, sugestões de caminhos de pesquisa a trilhar nos arquivos, troca de bibliografia, foram fruto dos momentos em que parávamos para tomar um café e espantar o sono, para almoçar ou tomar uma cerveja depois que o arquivo fechava. Foi numa dessas tardes que encontrei o processo-crime que me possibilitou trabalhar a trajetória do Manoel Congo em meu mestrado.

Vamos acompanhar, na próxima semana, a continuação da entrevista com o historiador Vinícius Pereira de Oliveira!

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[1]    João Cândido Felisberto foi o mais conhecido líder da Revolta dos Marinheiros de 1910, a Revolta da Chibata. Nasceu como ventre livre em 15/01/1880 na localidade de Coxilha Bonita/Rio Pardo. Era filho de João Candido Felisberto Velho e de Ignácia Felisberto, escravizados do pecuarista Gaspar Simões Pires e de sua esposa Florinda Cândida de Lima. Ingressou na Escola de Aprendizes Marinheiros do Rio Grande em 1895, sendo depois transferido para o Rio de Janeiro, onde sentou praça como grumete. Após a revolta ficou conhecido como o “Almirante Negro” e imortalizado pela MPB como o “Mestre Sala dos mares”.

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